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Porque Estado acabou com o Projecto de Luta Contra a
Pobreza?
Rita
Guerreiro
Sou
Psicóloga Criminal e Comportamentos Desviantes, desenvolvi o
meu Estágio Profissional numa IPSS, num Projecto de
Prevenção e Intervenção à Delinquência Juvenil (que teve
início a 15 de Julho de 2003 e terminou a 15 de Abril de
2004). Após estágio, prestei serviços como Psicóloga, em
regime de contrato (início a 16 de Abril e terminou a 31 de
Dezembro de 2004).
Nos
primeiros três meses, de Julho a Setembro de 2003, prestei
Apoio
Técnico ao
nível do Centro de Actividades de Tempos Livres (C.A.T.L.)
que tem por objectivo proporcionar o acolhimento durante uma
parte do dia e em tempo extra-escolar a crianças que
frequentam o 1.º e 2.º Ciclos e/ou com idades compreendidas
entre os 6 e os 30 anos. Este é um equipamento destinado a
prestar apoio extra-escolar a 32 crianças e a dinamizar todo
um leque de actividades sócio educativas por forma a que, a
criança tenha a possibilidade de criar, manifestar e
desenvolver as suas capacidades e potencialidades, bem como,
assegurar a continuidade educativa atendendo às necessidades
Bio-Psico-Sociais das diferentes etapas desenvolvimento da
criança, e assim, construir um ambiente propício ao
desabrochar da personalidade de cada sujeito por forma a
poder situar-se e expressar-se num ambiente de compreensão e
de respeito.
A
localidade onde trabalhei configura uma realidade marcada
por uma acentuada descaracterização cultural, bem como
problemas de aceitação social, baixa auto-estima, entre
outros problemas, todos relacionados directamente com os
jovens. Daí a necessidade de pôr em prática um projecto de
intervenção com vista à resolução dos problemas existentes.
Após
terminado o Estágio Profissional iniciei contrato como
Psicóloga nesta instituição sendo responsável por todas as
actividades que envolveram a coordenação, a organização e o
desenvolvimento deste projecto.
O Projecto
conta com 44 jovens inscritos, que envolve sensivelmente
cerca de 25 famílias. Foram elaboradas e dinamizadas as mais
diversas actividades que pudessem contribuir para a inclusão
e prevenção no processo de socialização e educação,
intervindo junto das várias problemáticas, tais como:
-Insucesso/ absentismo escolar;
-Abandono escolar;
-Negligência familiar;
-Negligências ao nível de cuidados de saúde e higiene;
-Marginalização étnica e social;
-Vadiagem, problemas de conduta;
-Prostituição;
-Toxicodependência;
-Leque de comportamentos desviantes.
O meu
trabalho foi desenvolvido em estreita colaboração com a
Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, o Instituto de
Reinserção Social e a Escola Básica de 2º e 3º Ciclos. Nos
estudos de casos, foi efectuada uma avaliação psicológica
aos jovens, sendo realizado, em paralelo, acompanhamento
junto das próprias famílias a fim de minimizar os problemas
existentes.
As
actividades lúdicas desenvolvidas junto dos jovens são
bastante diversificadas, desde: passeios dentro e fora do
concelho, jogos tradicionais, teatro, acampamentos, jornal,
turismo juvenil, campeonatos de futebol/ ping-pong, passeios
de BTT, canoagem, passeios pedestres, concursos de
fotografia, bailes, etc.
Hoje estou
desempregada...porquê?
Porque
Estado acabou com o Projecto de Luta Contra a Pobreza!!!
Lamento que
o nosso país ainda tenha um longo trabalho pela frente no
que diz respeito a projectos sociais, não entendo como é
possível o desemprego ser tão elevado entre os profissionais
ligados à área social, quando há tanto trabalho, tanta
necessidade de recursos humanos.
Como
tenciona o governo resolver graves problemas sociais, quando
os profissionais nessas áreas são escassos, e quando os há
manda-nos embora porque não há verbas para os manter!
O Estado ao
apoiar as IPSS, anualmente em quase mil milhões de euros
para assegurar continuadamente condições laborais e
remuneratórias dignas e adequadas à natureza das funções de
todos os trabalhadores, tem igualmente a responsabilidade e
a obrigação de acompanhar, zelar e fiscalizar o cumprimento
da correcta prossecução dos fins e da boa aplicação das
verbas atribuídas.
Os
trabalhadores na sua esmagadora maioria continuam sem
carreira profissional digna ou mesmo sem qualquer carreira,
e com os seus enquadramentos profissionais desadequados e
desvalorizados, continuam, a muitos deles, a não lhes ser
atribuídas categorias profissionais que correspondam às
funções efectivamente exercidas, com uso e abuso de
categorias não qualificadas ou indiferenciadas.
Neste
Projecto, onde os recursos humanos deveriam ser 1 Técnico da
Segurança
Social, 1
Professor, 1 Responsável de ATL e 1 Psicólogo, só existia
eu...
Hoje, após
a minha saída a 31 de Dezembro de 2004, o Projecto ficou a
funcionar com os profissionais que ainda restam na
instituição, no entanto, as suas funções não resolvem os
problemas manifestados pelos jovens daquela localidade. O
Projecto necessita de um Técnico de
Prevenção e
Intervenção especializado nessa área e não outro técnico
superior de outra área que tenta de alguma maneira manter as
mesmas funções.
Uma vez
mais uma IPSS, dispensou um profissional por achar que não
era estritamente necessário e porque não haveria verbas para
efectuar o pagamento do salário.
SERÀ ISTO
POSSÍVEL??? O QUE VAI SER DAQUELES JOVENS???
Certamente
que não é a curto prazo que se vão ver os resultados mas sim
a longo prazo...este trabalho estava a ser lisonjeado pelas
mais diversas entidades, tal como a Câmara Municipal, a
Comissão e Protecção de Crianças e Jovens em Risco, como um
trabalho que estava a ter “frutos”, no qual os jovens
estavam a mudar os seus hábitos e comportamentos para uma
melhor socialização e a perderem o rótulo que há muito
tinham.
Face a tudo
isto, o Governo continua, na prática, a nada fazer e tudo
permitir, apesar de ser directamente responsável, pois não
só não zela nem fiscaliza o correcto cumprimento e boa
aplicação das verbas atribuídas às IPSS.
Rita
Guerreiro
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