|
|
FUNCIONÁRIOS DE IPSS
SÃO OBRIGADOS A PAGAR PARA TRABALHAR
DINHEIRO DA SEGURANÇA SOCIAL É DESVIADO PARA IPSS
Do dia 5 de Dezembro de 2005 até ao dia 28 de Fevereiro de
2006 colaborei, como profissional independente, com o Centro
Comunitário de Esmoriz, em Ovar, para o projecto Novos
Trilhos no âmbito do PROGRIDE – Medida 1 da Segurança
Social.
Na entrevista de selecção falaram-me (presidente da direcção
e directora técnica) que teria que dar um donativo à
instituição – pré-requisito para ser admitida na
instituição. Concordei, com reticências, porque precisava de
emprego e visto que a instituição é uma I.P.S.S., isto é,
uma instituição com cariz de solidariedade. Disseram-me
também que todos os funcionários dão donativos que seriam
distribuídos aos funcionários como prémio de produtividade
no final do ano. Perguntei o valor do donativo e contornaram
a questão dizendo que depois se calcularia em função de eu
fazer retenção de I.R.S. e/ou descontos para a segurança
social.
No meu primeiro dia de trabalho apresentei-me ao serviço
dirigindo-me à directora técnica da instituição. Aproveitei
a ocasião para perguntar qual o valor do donativo, visto que
esta situação me parecia pouco clara sendo o projecto
financiado pela Segurança Social. A directora registou que
eu fazia retenção na fonte de I.R.S. e que pagava segurança
social e ficou de colocar a questão em reunião de direcção,
para depois me informar do valor definido pela direcção.
Visto que já tinham ocorrido duas reuniões de direcção
resolvi voltar a falar com directora técnica no sentido de
apurar a situação, foi-me então comunicado que teria que dar
um donativo de 200€ por mês à instituição.
Faço aqui uma reflexão acerca do que é um donativo para o
Centro Comunitário e Esmoriz. versus o que é um
direito/dever de cidadania num país democrático:
- valor definido pela direcção vs o que o dador entender;
- valor com carácter obrigatório vs de livre vontade do
dador;
- valor com periodicidade mensal vs quando o dador o
entender/puder;
Como fiquei chocada com a situação e respondi que esse valor
era um valor incomportável com a minha situação
pessoal/familiar, tendo a directora técnica dito que faria
chegar à direcção a minha posição. Uma semana depois esta
comunicou-me que a direcção não tinha alterado o valor e que
teria que dar 200€ por mês à instituição.
Apesar de precisar de trabalhar preferi seguir os meus
princípios e não colaborar com esta política da instituição
de desviar fundos da segurança social, que vem dos nossos
impostos para se fazerem projectos de desenvolvimento
social, mesmo ficando o meu lugar de trabalho comprometido.
Assim foi, passado 3 meses (Dezembro a Fevereiro), após
pressão e represálias, da directora técnica e serviços
administrativos, por não dar o donativo, fui despedida sem
qualquer espécie de consideração. Em vésperas de
Carnaval/dia 28, com ponte no dia 27 e fim-de-semana a 25 e
26, fui informada no dia 24, sexta-feira depois do almoço,
pela a directora técnica que a direcção entendeu dispensar
os meus serviços. Ao clarificar os motivos a directora
técnica admite que foi por não dar o donativo.
As minhas outras 3 colegas de trabalho são obrigadas a dar o
donativo, cada uma tem um valor estipulado para dar, bem
como outras colegas do projecto Ser Criança e outros
projectos/valências também são abrigadas a fazê-lo, em troca
de terem um posto de trabalho. Ao fim ao cabo, são dinheiros
da Segurança Social que vão para os bolsos de meia dúzia de
directores de uma IPSS, sem se saber o seu destino. Isto
porque as pessoas são facilmente substituídas: eu não dou
mas vem outro psicólogo (desesperado para trabalhar) e dá...
Não falta é psicólogos...
Quem regula o exercício da profissão, quem nos protege
destas situações! A Ordem dos Psicólogos impõe-se. Apesar
desta estar já aprovada na generalidade, impõe-se também um
debate alargado dos seus estatutos porque não basta ter uma
Ordem é preciso que ela seja representativa e democrática e
julgo que os estatutos não vão nesse sentido...
Ana Margarida Ramos
|